segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Que posso fazer para ter a vida eterna? (Lc 18.18-30)


Os dois grandes mandamentos que segundo Jesus resume a Lei e os Profetas referem-se a amar a Deus e amar o próximo como a si mesmo (Mt 22.37-40). A prática da Lei, em especial o que conhecemos como 10 mandamentos ou a Lei moral de Deus destaca em seu conteúdo o relacionamento que o ser humano deve ter com seu Criador, bem como o reflexo disto em seu relacionamento com as pessoas (Ex 20.2-17; Dt 5.6-21). Podemos dividir os dez mandamentos em duas seções, em que os primeiros quatro mandamentos falam do relacionamento do homem com Deus e os outros seis, do relacionamento com seu próximo. Nos textos do Novo Testamento podemos ver como Jesus e os discípulos viam a ligação entre estes mandamentos (Mt 5.21-24; Rm 13.8-10; Gl 5.13-14). Isto nos leva a pensar em como os valores deste mundo são contrários aos valores do Reino de Deus.
Uma das características da nossa sociedade é a busca pela satisfação pessoal. Uma espécie de Hedonismo (teoria ou doutrina filosófico-moral que afirma que o prazer é o bem supremo da vida humana, é o prazer por prazer). No entanto, o excesso de satisfação trás consigo o comodismo como reação imediata e faz de muitas pessoas satisfeitas consigo mesmas, sem necessidade de nada. Porém, a realidade é outra, na sua satisfação encontra-se um vazio, que revela o quão insatisfeito o ser humano encontra-se consigo mesmo. Nesse texto podemos encontrar um homem satisfeito consigo mesmo, mas que no encontro com Jesus descobriu sua insatisfação. O texto nos diz que este homem era de “posição” indicando assim seus status diante da sociedade, um homem rico que tinha muitas propriedades (Lc 18.23). Este homem era alguém de pouca idade, provavelmente ele tinha entre 30 à 35 anos. O texto de Mateus diz que ele era Jovem (Mt 19.20), o termo do original grego é Neaniskos que deriva do termo neanias, que na concepção judaica era alguém que tinha entre 25 aos 35 anos. Ao aproximar-se de Jesus este homem queria mostrar a todos que tinha condições suficientes para ser discípulo de Cristo. Na época de Jesus, ser escolhido por um mestre significava que você estava apto para conviver com ele. Ao aproximar-se o jovem demonstra qual era a sua preocupação: ser visto como bom e ter garantias da vida eterna (Lc 18.18).
Este jovem homem, no auge de sua vida vivia satisfeito em três aspectos diferentes: com sua bondade, com seu status perante os homens e com a sua riqueza. Para todas elas, Jesus confronta o Jovem com a sua própria percepção de bondade, de posição e o verdadeiro valor que as riquezas tem no Reino de Deus:
 - 1ª Confronta a bondade, como ele via a si mesmo (v. 19): “bom só existe um”. A ideia central é mostrar para aquele Jovem que não existe bondade plena nos homens e que somente em Deus essa bondade pode ser vista. A pergunta sobre os mandamentos revela que sempre haverá um mandamento em falta na vida dos que tentam se salvar pelas obras. Isto ficou claro no amor que este demonstrou por sua riqueza.
 - 2ª Confronta seu Status, sua posição na sociedade (v. 22): Cristo mostra que não adianta ter riqueza, ser bem visto pelos homens se não tem a vida eterna. Em outras palavras, ter o olhar do mundo sobre si, mas não ter o agrado dos olhos de Deus. Ele queria ser perfeito, mas perfeição só há quando acertamos o alvo. Quando Cristo fala de perfeição no versículo 22, não está se referindo a ausência de erros, mas sobre alguém que tem um arco e flecha nas mãos e acerta o alvo em sua frente. Pois o termo TELEIOS, traduzido por perfeito, significa alguém que faz exatamente o que deve e/ou precisa ser feito. Este Jovem não estava preparado para fazer o que precisava, por isso resolveu ir embora a abandonar suas riquezas.
 - 3ª Confronta com suas riquezas/ posses materiais (v. 22): Cristo ensina aos seus discípulos que maior é o tesouro que existirá na eternidade para aqueles que acertam o alvo. Ele não seria um homem impecável se abandonasse o dinheiro, mas seria um homem com um coração pertencente a um só Deus. Não mais o dinheiro, mas aquele que é bom plenamente (Mt 6.24). Jesus nos ensina que a satisfação plena não vem de nós mesmos e do que conquistamos, a plenitude da vida se encontra em Deus, em cumprir com a sua Palavra e com seus mandamentos. Este Jovem preferiu continuar com seu coração voltado para o seu ídolo do que voltar-se para Deus.
Porque não temos condições de viver satisfeitos com o que somos por natureza e com que temos por conquista?
   a. Porque não há nada em nós que nos torne bons aos olhos de Deus (Rm 3.10-12,23): há uma necessidade em cada ser humano de se achar apto para entrar no Reino de Deus, contudo, a Bíblia nos mostra que, pecadores que somos a única coisa que merecemos é o inferno. Sem Deus intervindo em nossas vidas e abrindo nossos olhos jamais poderemos compreender a grandiosidade do seu amor. A bondade que expressamos aos outros revela muitas vezes o desejo de conseguir com que Deus nos veja com bons olhos e nos dê a vida abundante que prometeu, porém Deus revela que a salvação é pela graça e não pelas obras (Ef 2.8-9). Somente quando Deus muda nosso coração é que estaremos aptos a herdar o seu Reino, é preciso nascer de novo para ter uma nova vida e uma nova perspectiva do reino de Deus. O jovem que pergunta para Jesus achava-se totalmente apto para herdar a vida eterna, cumprindo os mandamentos ele crê que vai conseguir. Isso não é possível, pois vemos que muitos cumpriam os mandamentos somente para manter a boa aparência, não havia compromisso com o Reino. Ter uma vida religiosa não faz de você um salvo, apenas mais um cego tentando achar o caminho sem ter certeza de para onde está indo.
   b. A vida eterna está além dos méritos humanos, somente Deus é que pode concedê-la (v. 24.27): quando Jesus responde ao jovem que falta uma coisa para ele fazer, sua alegria transforma-se em decepção, pois sua ideia de salvação era diferente da ideia de Jesus. Ele achou que tendo na terra, poder, honra e cumprindo a Lei poderia conseguir a salvação. A salvação é um grande milagre vindo de Deus que excede toda possibilidade humana (v.25 – traz a ideia de que a salvação é impossível se não confiar plenamente em Deus). É necessário que haja uma transformação na mente e no coração. O homem rico confiava na sua própria boa conduta, mas não confiava em Jesus para capacitá-lo a renunciar sua riqueza terrena. Confiança e renúncia são as palavras-chave em questão. Renúncia é o que faltou de bom naquele homem rico e infeliz, que decidiu não renunciar o seu dinheiro para seguir a Jesus (Lc 9.23-24).
    c. A verdadeira fé é vivida no amor que temos para com Deus, mas ela se expressa no amor que demonstramos ao nosso próximo (v. 28-30): quando Jesus chama os homens para caminhar com ele, é exigida uma vida de renúncia. Isto significa andar no caminho que Jesus andou, o caminho da cruz, da humildade e da submissão. Esta prática tem que ser superior a lealdade que se tem para com a família, as riquezas e a própria vida (Lc 14.26,27,33). Somente em Jesus a fé é expressa de forma verdadeira e o amor de maneira sincera. Aqueles que compreendem o chamado de Jesus e a salvação vinda de Deus, tem consciência de que receberão os galardões do Reino de Deus na vida vindoura, mas também nesta vida. Contudo, eles não fazem disto um fim, mas entendem que é resultado de uma vida com Deus. O homem que quer a salvação por seus próprios esforços é limitado na sua compreensão do amor, da bondade e da misericórdia de Deus. Chegará o momento que lhe será impossível por sua própria atitude herdar o galardão, pois está além de suas capacidades. O jovem não conseguiu dar tudo o que tinha, por isso foi embora triste sem conseguir o que queria. Com sua atitude ele demonstrou que sua obediência a Lei não passava de mera religiosidade, pois não conseguiu abrir mão do que tinha de mais precioso aos seus olhos repartindo com o próximo o que Deus lhe havia dado.

Conclusão
Desde que pecou o homem perdeu a capacidade de obedecer a Deus, sua vida é voltada para si, na busca de satisfazer suas necessidades/desejos. O dinheiro daquele jovem, que parecia um aliado para herdar a vida eterna, serviu de empecilho e pedra de tropeço. Ele não foi capaz de renunciar aquilo que mais amava por amor a Deus. A vida eterna não pode ser alcançada ou merecida por boas obras. É impossível ser perfeito obedecendo aos mandamentos para alcançar a vida eterna. As obras devem ser a consequência e não a causa da salvação. O texto começa com uma pergunta sobre o que devemos fazer para entrar no Reino de Deus e termina com uma resposta de Jesus aos seus discípulos, que isto só é possível a Deus. Ser discípulo de Jesus requer bem mais do que vir a igreja, ler a Bíblia e orar a Deus (todas estas coisas são importantes), porém andar com Jesus exige renúncia de nossa parte, principalmente daquilo que mais amamos. Aquele rapaz serviu como o modelo de fracasso humano em se obter êxito próprio diante de Deus. Seu coração mostrou onde se encontrava sua prioridade. A natureza caída em nada nos ajuda. As boas intenções são infrutíferas. A justiça própria é como trapo imundo. Por maior que seja a vontade, o empenho, a disposição de agradar a Deus, decididamente, resta-nos a desgraça. Por que é apenas pela Sua graça, a qual proporcionou a remissão dos pecados pelo sacrifício de Cristo na cruz do Calvário é que é possível obter a salvação.
“As coisas que são impossíveis aos homens, são possíveis a Deus.” (Lucas 10.27)
Referências para Estudo: 
MARTINS, Gedeon. Nunca satisfeitos, mas plenamente perfeito. Disponivel em: http://exegesedonovotestamento.blogspot.com/2014/02/mensagem-em-mateus-1916-22-o-jovem-rico.html
TRINDADE, Josué. O jovem rico exegese. disponível em: http://pregadorcalcajeans.blogspot.com/2015/08/jovem-rico-exegese-marcos-1017-21.html
MARINHO, Ruy. Jovem Rico, condenado? Disponível em: https://bereianos.blogspot.com/2013/08/jovem-rico-condenado-comentario-marcos.html
GONÇALVES, Cláudio César. O rico , Jesus e a vida eterna. Disponível em: 
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segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A ceia do Senhor: uma relação de aliança com Deus (Mt 26.26-30)


A última refeição de Jesus com seus discípulos tem um significado de extrema importância para ele e todos que viriam a crer nele (Lc 22.15-16). A promessa de Deus de enviar aquele que iria pisar a cabeça da serpente estava prestes a se tornar realidade (Gn 3.15). Ao longo da história Deus foi revelando o cumprimento do seu plano já estabelecido antes da criação de todas as coisas (1Pe 1.18-20).
Aliança como um Pacto
Nosso Deus é um Deus de alianças. Desde o princípio, Ele estabeleceu alianças com as pessoas de forma condicional e outras de forma incondicional. Alianças condicionais são aquelas que dependem da fidelidade das partes em cumprir com o que foi acordado; já a aliança incondicional depende unicamente daquele que faz o pacto. Deus fez aliança com Adão no Éden, exigindo dele obediência para que está se mantivesse; com Noé, prometendo não destruir mais a terra com água; com Abraão, prometendo abençoá-lo e a toda sua descendência; com Moisés, em que por meio da Lei revelou o seu caráter ao seu povo; com Davi, prometendo um herdeiro eterno para o seu trono. Em todas estas alianças, Deus foi revelando seu propósito maior de estabelecer uma aliança de amor para com aqueles que Ele os chamou para si. Desde os tempos antigos, os pactos ou alianças têm feito parte do cotidiano da relação de Deus com seu povo. De maneira bem simples, as alianças são promessas reveladas e dadas por Deus de modo que a nossa fé seja fortalecida pela fidelidade do nosso Deus em cumprir com a sua Palavra. Em seu aspecto mais essencial, aliança é aquilo que une as pessoas debaixo de um vínculo de compromisso e fidelidade (Ex. casamento) Por meio da cerimonia, dos votos e do próprio símbolo utilizado para união de duas pessoas mostram este compromisso e fidelidade e para confirmar as alianças são feitas baseadas em juramentos e sinais que mostram essa relação de compromisso que existe entre as pessoas (votos e aliança). Temos em Noé, o juramento de não destruir a terra com água e o sinal do arco-íris; em Abraão, o juramento de uma descendência e o sinal da circuncisão; em Moisés o juramento da Terra e o sinal da Lei revelada e dada por Deus.
Aliança como um Pacto de Sangue
Contudo, nas alianças estabelecidas por Deus, elas sempre envolveram um pacto de vida ou morte. Deus jamais entra em aliança de forma casual ou informal, em lugar disso, sua aliança implica levar o compromisso as últimas consequências, ou seja, um pacto de vida ou morte. A morte sacrificial tem um simbolismo muito forte na relação da aliança feita por Deus e com Deus (Hb 9.22). Os animais que eram sacrificados representam que o compromisso com Deus deve ser levado a sério. O sacrifício de um animal simbolizava a garantia do compromisso assumido entre as partes. Não cumprir com os termos da aliança é trazer sobre si maldição (Tg 2.10). O sangue derramado traz consigo a figura de que o valor da vida encontra-se na fidelidade para com o compromisso assumido (“até que a morte os separe”). Quebrar este compromisso é assumir as consequências estabelecidas entre as partes e muitas vezes declarar a sentença de morte. Assim, a Bíblia nos revela que Adão ao quebrar o compromisso da aliança com Deus, exigia a morte conforme foi anunciada por Deus: “no dia em que dela comeres certamente morrerás”. Contudo, o infrator não tinha condições de justificar-se diante de Deus, pois, sua vida estava agora contaminada, e o sacrifício teria que ser perfeito. O animal que foi morto por Deus, serviu para cobrir a vergonha de Adão e Eva pela culpa que estava sobre eles (Gn 3.21). Mas, ainda assim este sacrifício não tirava dele os seus pecados, por isso, os sacrifícios eram constantes.
Aliança consumada: Jesus Cristo a consumação do pacto de sangue
Somente em Cristo, é que este sacrifício foi feito de uma vez por todas (Jo 1.29). A base da aliança está no cumprimento dos termos acordados. Desta forma, Jesus cumpriu toda a Lei estipulada por Deus, nos termos da aliança que foi feita (Rm 10.4 – este cumprimento se refere tanto ao termo cerimonial da Lei_sacrificíos e ofertas, como também das exigências de perfeição da lei_cordeiro sem mancha, sem mácula). Jesus morreu em lugar do pecador, levando sobre si todas as maldições que a quebra da aliança estabelecia (Gl 3.10-13).
A instituição da Ceia do Senhor vem agora como símbolo da aliança prometida por Deus de redimir para si um povo (Mt 26.28). Por causa das violações da aliança, os homens foram condenados à morte (Rm 5.12). Jesus tomou sobre si as maldições e consequentemente assumiu as consequências desta quebra morrendo em nosso lugar (Gl 3.13). Somos agora, parte da família de Deus, por causa da morte de Jesus que nos justifica diante de Deus e nos torna herdeiros de suas promessas. (Ef 2.11-16). Cada vez que celebramos a Ceia do Senhor, podemos nos alegrar na experiência da comunhão com Deus alcançada pelo sangue de Jesus, desfrutando da glória de Deus com a presença do Espírito Santo que testifica em nosso coração o perdão de nossos pecados e anunciamos o cumprimento da promessa de Deus em nos fazer herdeiros do seu Reino que há de se manifestar na ressurreição e glória de Cristo.

Referências para estudo:
ROBERTSON. O. Palmer. Cristo dos Pactos. Campinas/SP. Editora Luz para o caminho, 1997.
Bíblia de Estudo Almeida. Barueri - SP. Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. Versão ARA. 
Bíblia de Estudo Arqueológica NVI. São paulo/SP. Editora Vida Nova, 2013.