segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

A questão do livre arbítrio - será que realmente somos livres?

A questão do livre arbítrio é tema debatido ao longo da história da teologia cristã, especialmente dentro da tradição reformada. A complexidade dessa discussão reside na relação entre a soberania de Deus, a responsabilidade humana e a natureza do pecado. Ao abordarmos essa questão, é imprescindível compreender a condição do homem em relação ao pecado e a liberdade que encontramos em Cristo. No contexto reformado, a doutrina da depravação total é um ponto de partida fundamental. Esta doutrina enfatiza que, devido à Queda, a capacidade do ser humano de escolher o bem foi severamente corrompida. A partir de Gênesis, vemos que o pecado não afetou apenas a relação entre Deus e a humanidade, mas também obscureceu a capacidade do homem de fazer escolhas verdadeiramente livres, na medida em que está inclinado a buscar seu próprio interesse e a desobedecer a Deus, ou seja sua vontade ficou subjugada ao pecado. Veja o que diz Romanos 3:10-12: “Como afirmam as Escrituras: "Ninguém é justo, nem um sequer. Ninguém é sábio, ninguém busca a Deus. Todos se desviaram, todos se tornaram inúteis. Ninguém faz o bem, nem um sequer." E o profeta Isaías também disse: “Estamos todos impuros por causa de nosso pecado; quando mostramos nossos atos de justiça, não passam de trapos imundos. Como as folhas das árvores, murchamos e caímos, e nossos pecados nos levam embora como o vento.” (Isaías 64.6). Nesse sentido, o livre arbítrio, tal como muitas vezes é entendido, é limitado por essa inclinação ao pecado.

Desta forma fica o questionamento: “Será que somos realmente livres, o ser humano tem liberdade para fazer suas escolhas?” Essa pergunta, quando mal-entendida, leva muitos a dizerem: “Mas é claro que sou livre, posso fazer o que eu quiser com a minha vida, inclusive escolher se vou ou não seguir a Deus.” Embora, pareça a questão pareça válida, contudo, ela não leva em consideração a perspectiva que a Bíblia apresenta da condição e da natureza em que a pessoa sem Cristo se encontra. Veja o que diz Efésios 2.1-3: “Vocês estavam mortos por causa de sua desobediência e de seus muitos pecados, nos quais costumavam viver, como o resto do mundo, obedecendo ao comandante dos poderes do mundo invisível (isto é o diabo). Ele é o espírito que opera no coração dos que se recusam a obedecer. Todos nós vivíamos desse modo, seguindo os desejos ardentes e as inclinações de nossa natureza humana. Éramos, por natureza, merecedores da ira, como os demais.” E nas palavras do próprio Jesus: “Jesus respondeu: — Em verdade, em verdade lhes digo que todo o que comete pecado é escravo do pecado.” (João 8.34); e Pedro em sua carta escreve: “Prometem-lhes a liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois aquele que é vencido fica escravo do vencedor.” (2Pedro 2.19). Por esses textos, podemos perceber que as pessoas são escravas do pecado, sua natureza caída, faz com que suas escolhas sejam condicionadas pela vontade da carne.  

No entanto, a tradição reformada não se limita a uma visão pessimista da condição humana. A esperança que encontramos em Jesus Cristo é central para a teologia reformada e oferece uma nova perspectiva sobre o livre arbítrio. Através da redenção em Cristo, somos chamados a uma nova vida e, por meio do Espírito Santo, somos capacitados a fazer escolhas que glorificam a Deus. Em 2 Coríntios 5:17, Paulo nos lembra que "se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo". E Jesus disse: “Se, pois, o Filho os libertar, vocês serão verdadeiramente livres.” (João 8.34). Essa transformação implica que, embora a natureza humana esteja inclinada ao pecado, aqueles que estão em Cristo recebem a liberdade verdadeira — a capacidade de escolher o bem e de se submeter à vontade de Deus. Contudo, isso só é possível para aqueles que reconhecem a obra de Cristo e o recebem como seu Senhor e Salvador – “Mas, a todos que creram nele e o aceitaram, ele deu o direito de se tornarem filhos de Deus.” (João 1.12) e “Agora, portanto, já não há nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus. Pois em Cristo Jesus a lei do Espírito que dá vida os libertou da lei do pecado, que leva à morte.” (Romanos 8.1-2).  

Ao longo dos séculos, pensadores reformados, como Agostinho, Calvino e mais recentemente, John Piper, refletiram sobre essa tensão entre a soberania divina e o livre arbítrio humano. Agostinho, por exemplo, enfatizava a necessidade da graça de Deus para a salvação, argumentando que, sem a intervenção divina, o homem estaria irremediavelmente perdido. Calvino, por sua vez, desenvolveu a ideia da predestinação, que, embora frequentemente mal interpretada, enfatiza a soberania de Deus na salvação, assegurando que aqueles que são escolhidos por Ele são também capacitados a responder a esse chamado.

A tensão entre livre arbítrio e a escravidão do pecado é, portanto, um convite à reflexão profunda sobre o que significa ser verdadeiramente livre. A liberdade que encontramos em Cristo não é uma liberdade para fazer qualquer escolha, mas uma liberdade para escolher o que agrada a Deus, a partir da transformação operada pelo Espírito Santo em nossos corações. Isso nos leva a um relacionamento mais profundo com Deus, onde a verdadeira liberdade se manifesta em obediência e amor.

Este artigo vai explorar a conexão entre livre arbítrio, a escravidão do pecado e a esperança em Jesus, utilizando passagens bíblicas e reflexões de autores reformados. O objetivo é entender esses conceitos e aplicá-los na prática, reconhecendo que a verdadeira liberdade se encontra na confiança e dependência de Deus.

A Escravidão do Pecado

A Bíblia descreve a condição humana em termos de escravidão ao pecado. Em Romanos 6:16, Paulo afirma: "Não sabeis que, a quem vos apresentais como servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, seja do pecado para a morte, seja da obediência para a justiça?" Este versículo ilustra de maneira clara que, antes da regeneração, o homem está aprisionado ao pecado e não possui a capacidade de escolher o bem sem a intervenção divina. A linguagem utilizada por Paulo é poderosa, pois nos convida a refletir sobre as implicações profundas da nossa condição espiritual.

O conceito de escravidão do pecado está intimamente ligado à doutrina da depravação total, que ensina que, devido à queda do homem, todas as faculdades do ser humano – mente, vontade e emoção – estão afetadas pelo pecado. Isso significa que cada aspecto da nossa existência é influenciado por essa corrupção. A depravação total não implica que os seres humanos são tão maus quanto poderiam ser, mas que, em nossa natureza caída, estamos inclinados a rejeitar a Deus e a Sua verdade. Neste ponto é que as pessoas precisam entender a questão de que o ser humano não tem livre-arbítrio, a sua relação com Deus foi rompida pelo pecado (Veja Isaias 59.2 e Romanos 3.23). Como resultado, o homem natural é incapaz de buscar a Deus ou de escolher o bem por si mesmo.

Essa condição não implica que o homem não tenha vontade; ao contrário, a Escritura reconhece que todos nós temos a capacidade de tomar decisões. No entanto, a nossa vontade está inclinada ao pecado. É como se estivéssemos em uma prisão, onde as grades são formadas por nossos próprios desejos egocêntricos e pela corrupção inerente à nossa natureza. Mesmo quando tentamos fazer o bem, muitas vezes somos arrastados por essa inclinação, que nos leva a escolhas que refletem nossa condição pecaminosa.

A escravidão do pecado não é apenas uma questão de comportamento, mas envolve uma luta interna, uma batalha espiritual que se desenrola em nosso interior. Paulo, em Gálatas 5:17, descreve essa luta ao afirmar que "a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; porque são opostos entre si". Essa batalha revela a dualidade da experiência humana: por um lado, o desejo de agradar a Deus e, por outro, a tentação de sucumbir ao pecado. Essa realidade nos leva à necessidade de uma intervenção externa, algo que vai além de nossos próprios esforços e vontades.

É nesse contexto que o evangelho se torna uma mensagem de esperança. A boa nova é que, através de Cristo, temos acesso à libertação dessa escravidão (Gálatas 5.1). A liberdade que Cristo oferece não é a ausência de servidão, mas uma nova servidão, onde passamos de servos do pecado para servos da justiça. Essa transformação é um ato de graça divina, que nos capacita a viver de maneira diferente, a buscar o bem e a obedecer a Deus. A nossa vida é uma questão de “A quem estamos servindo?” Existem dois reinos em batalha: o Reino de Deus, inaugurado por Cristo e o Reino das Trevas, e foi para isso que Cristo veio, para nos libertar do Reino das Trevas e nos levar para o Reino da Luz (Veja Colossenses 1.9-14 e Hebreus 2.14-15).

Assim, a escravidão do pecado é um tema fundamental na compreensão da condição humana. É um lembrete constante de nossa necessidade de redenção e da importância da ação sobrenatural de Deus em nossas vidas. Somente por meio da fé em Jesus Cristo, podemos experimentar a verdadeira liberdade e a restauração de nossa natureza, permitindo-nos viver em obediência e em comunhão com o nosso Criador. O convite é claro: é necessário reconhecer nossa condição, clamar por libertação e permitir que a graça de Deus transforme nossos corações e mentes, guiando-nos em uma nova direção, onde o pecado não mais nos domina, mas onde somos guiados pela luz da verdade e da justiça.

O Livre Arbítrio na Perspectiva Reformada

Na tradição reformada, a compreensão do livre arbítrio é intricada e distinta, especialmente quando contrastada com a visão arminiana. Enquanto os arminianos enfatizam a capacidade do ser humano de escolher entre o bem e o mal, os reformados sustentam que o livre arbítrio do homem é limitado e, em última análise, corrompido pelo pecado original. Esta visão se fundamenta na doutrina da total depravação, que afirma que, sem a intervenção divina, o homem está completamente incapaz de buscar a Deus ou fazer o bem por conta própria (em Romanos 7, o apóstolo Paulo fala da constante luta da velha natureza corrompida pelo pecado e o desejo de fazer o que agrada a Deus).

A natureza pecaminosa do ser humano, conforme descrita em Romanos 3:23, "Porque todos pecaram e carecem da glória de Deus", implica que, em seu estado natural, o ser humano não possui a liberdade verdadeira para escolher o que é bom. Essa escravidão ao pecado é uma condição que se reflete em suas escolhas e ações, que, embora possam parecer livres, estão, na verdade, condicionadas por sua natureza caída.

É somente através da graça de Deus e da obra regeneradora do Espírito Santo que o homem pode ser libertado dessa prisão espiritual (João 16.7-11). A regeneração é uma transformação interior que permite ao indivíduo não apenas reconhecer sua necessidade de salvação, mas também capacitá-lo a fazer escolhas que glorifiquem a Deus. Em Efésios 2:8-9, Paulo nos lembra: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie." Essa passagem ressalta a ideia de que a salvação é um ato soberano de Deus, que não depende das obras humanas, mas é um presente divino que transforma o coração e a mente. Essa transformação do coração é a base das promessas que Deus fez através dos profetas Jeremias e Ezequiel:

"E esta é a nova aliança que farei com o povo de Israel depois daqueles dias", diz o Senhor. "Porei minhas leis em sua mente e as escreverei em seu coração. Serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.34 E não será necessário ensinarem a seus vizinhos e parentes, dizendo: ‘Você precisa conhecer o Senhor’. Pois todos, desde o mais humilde até o mais importante, me conhecerão", diz o Senhor. "E eu perdoarei sua maldade e nunca mais me lembrarei de seus pecados." (Jeremias 31.33-34)

“Eu lhes darei um coração novo e porei dentro de vocês um espírito novo. Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei dentro de vocês o meu Espírito e farei com que andem nos meus estatutos, guardem e observem os meus juízos.” (Ezequiel 36.26-27)

Com essa transformação, o crente é agora dotado de um novo desejo e uma nova capacidade de escolher o bem. Através do Espírito Santo, o fiel é guiado a viver de acordo com os princípios de Deus, encontrando verdadeira liberdade não na autonomia, mas na submissão à vontade divina. Essa liberdade é descrita em Gálatas 5:13, onde Paulo ensina que "vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; não useis, porém, a liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor". Aqui, a verdadeira liberdade é entendida como a capacidade de amar e servir a Deus e ao próximo, em vez de ser escravo das paixões e desejos pecaminosos.

Portanto, na perspectiva reformada, o livre arbítrio não é simplesmente uma questão de escolha, mas de transformação. O homem, ao ser regenerado, não só é liberto da escravidão do pecado, mas também é capacitado a viver uma vida que reflete a glória de Deus. Essa visão nos convida a compreender a salvação como um ato de graça soberana, onde o papel do ser humano é responder a essa graça com fé e obediência, reconhecendo que, em última análise, é Deus quem opera tanto o querer quanto o realizar em nós, sem negar a responsabilidade humana (Filipenses 2:12-13). Assim, a verdadeira liberdade, segundo a tradição reformada, é encontrada na submissão ao Senhor e na vivência dos Seus mandamentos, que são bons e perfeitos.

A Esperança em Cristo

A esperança que temos em Cristo é central para a nossa libertação da escravidão do pecado. Em João 8:36, Jesus declara: "Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres." Essa liberdade não é apenas uma libertação do juízo do pecado, mas também uma capacitação para viver de acordo com a vontade de Deus. É uma transformação radical que nos permite não apenas escapar das correntes do pecado, mas também abraçar uma nova identidade como filhos e filhas do Altíssimo.

A vitória sobre o pecado é uma realidade que se torna nossa pela fé. Romanos 6:14 afirma: "Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça." A graça de Deus não apenas perdoa os pecados, mas também capacita os crentes a viverem em santidade e a resistirem às tentações. É essa graça que nos sustenta em momentos de fraqueza, lembrando-nos de que não estamos sozinhos na luta contra o mal. Cada vez que caímos, somos convidados a levantar novamente, confiando na misericórdia divina que se renova a cada manhã (Lamentações 3.21-23).

Além disso, essa esperança em Cristo nos oferece um propósito e uma direção em nossas vidas. Em Efésios 2:10, lemos que somos "feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas." A libertação que experimentamos não é um fim em si mesma, mas um meio pelo qual somos chamados a viver uma vida que glorifica a Deus. A nossa esperança se traduz em ações concretas que refletem o amor e a graça que recebemos.

É importante reconhecer que essa jornada não é isenta de desafios. Diariamente, somos confrontados com tentações e distrações que podem nos levar de volta à escravidão do pecado, pois embora tenhamos a nova identidade e uma nova natureza, ainda habitamos num corpo que precisa e será glorificado. Desta forma, seremos como Jesus, sem pecado (1João 3.1-4). No entanto, em 1 Coríntios 10:13, encontramos a promessa de que Deus é fiel e não permitirá que sejamos tentados além do que podemos suportar. Ele sempre nos oferece uma saída, um caminho de volta à liberdade. Essa certeza fortalece a nossa esperança, pois sabemos que, em Cristo, temos um Mediador que intercede por nós e nos dá a força necessária para resistir (Veja Hebreus 4.14-16).

A nossa esperança em Cristo não é apenas uma realidade individual; ela é comunitária. A Igreja, como o corpo de Cristo, é um espaço onde podemos encorajar uns aos outros, compartilhar nossas lutas e celebrar nossas vitórias. Em Hebreus 10:24-25, somos exortados a considerar como estimular uns aos outros ao amor e às boas obras, não abandonando a nossa congregação. A esperança que temos em Cristo se torna mais rica e significativa quando vivemos em comunhão, apoiando-nos mutuamente na caminhada de fé. Sozinho, nós caímos, falhamos e erramos, e mesmo estando na igreja isso pode acontecer, porém, ali temos irmãos e irmãs que estão na mesma luta e propósito, e que juntos e apoiando uns aos outros seguem firmes na jornada de fé e luta contra o pecado.

Portanto, ao olharmos para a cruz e ao reconhecermos a profundidade da graça que nos foi concedida, somos lembrados de que a esperança em Cristo é poderosa e transformadora. É uma esperança que nos liberta, nos capacita e nos impulsiona a viver de maneira que glorifique a Deus. Em todas as circunstâncias, podemos ter confiança de que, em Cristo, somos mais que vencedores, e que a nossa verdadeira liberdade é uma realidade que já nos pertence.

Conclusão

Em suma, a doutrina do livre arbítrio e a escravidão do pecado, quando compreendidas à luz da Escritura, revelam a maravilhosa esperança que temos em Cristo. Embora o homem, em seu estado natural, esteja preso ao pecado, a graça de Deus oferece libertação e a capacidade de escolher o bem. Por meio da fé em Jesus, recebemos a vitória sobre o pecado e a liberdade para viver de acordo com a vontade de Deus.

A compreensão do livre arbítrio nos permite reconhecer que, apesar das limitações impostas pelo pecado, somos dotados pela fé em Cristo e pelo poder do espírito Santo que passa a habitar o coração daqueles que crê, da capacidade de tomar decisões que moldam o nosso caráter e destino. A Escritura nos ensina que, ao aceitarmos a mensagem do evangelho, somos transformados de dentro para fora. Essa transformação não é apenas um ato de perdão, mas um processo contínuo de renovação que nos capacita a resistir às tentações e a viver em conformidade com os princípios do Reino de Deus.

A escravidão do pecado, por outro lado, nos lembra da gravidade da condição humana sem a intervenção divina. O apóstolo Paulo, em suas cartas, frequentemente aborda a luta interna do crente, evidenciando a batalha entre a carne e o espírito. Essa luta é uma prova de que, apesar de sermos libertos, ainda enfrentamos desafios diários que exigem vigilância e comprometimento com a fé. Contudo, é exatamente nesse contexto que a graça de Deus se torna palpável. Ela não só nos perdoa, mas também nos fortalece e nos sustenta em nossa jornada espiritual.

Ademais a esperança que encontramos em Cristo é uma esperança ativa. Não se trata apenas de uma expectativa passiva de um futuro glorioso, mas de um convite para viver de maneira plena no presente. Essa vida abundante é caracterizada por relacionamentos restaurados, propósito e a capacidade de amar incondicionalmente. Ao exercermos nosso livre arbítrio para seguir a Cristo, nos tornamos agentes de transformação no mundo ao nosso redor, refletindo a luz e o amor de Deus em todas as nossas interações.

Portanto, ao encerrar esta reflexão, quero lembrá-los que a verdadeira liberdade não é a ausência de regras, mas a capacidade de escolher o bem em meio à tentação. Com a ajuda do Espírito Santo, somos capacitados a viver em obediência, experimentando a alegria e a paz que vêm de estar alinhados com a vontade de Deus. Assim, a doutrina do livre arbítrio e a libertação do pecado nos conduzem a uma vida de gratidão e serviço, onde podemos glorificar ao Senhor em todas as coisas. Que possamos sempre nos lembrar de que, em Cristo, somos mais do que vencedores e que nossa liberdade é um testemunho da Sua graça transformadora.

Referências Bibliográficas

1.    Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus. São Paulo: Editora Paulus, 2003.

2.    Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2015.

3.    Lutero, Martinho. A Liberdade do Cristão. São Paulo: Editora Martin Claret, 2001.

4.    Piper, John. Fiel a Deus: A Fé que Busca a Justiça. São Paulo: Editora Fiel, 2011.

5.    Sproul, R. C. A Soberania de Deus. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

6.    https://voltemosaoevangelho.com/blog/2024/11/o-livre-arbitrio-existe/?

7.    https://personaret.blogspot.com/2011/07/biografia-quem-foi-jaco-arminio.html

8.    https://www.monergismo.com/textos/arminianismo/breve_historico_arminianismo_tokashiki.html

9.    https://teologiaarminiana.blogspot.com/2009/01/uma-breve-histria-sobre-armnio-e-o.html

 

 


quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Maria, mãe de Jesus ou mãe de Deus? - Uma perspectiva bíblica sobre Maria

A figura de Maria, mãe de Jesus, ocupa um lugar significativo na tradição cristã, sendo venerada por muitos, especialmente na Igreja Católica. É comum encontrá-la como um símbolo de pureza, obediência e maternidade. Por causa disso, e que ela se tornou um ícone de devoção ao longo dos séculos. No entanto, a visão reformada e evangélica propõe uma reflexão crítica sobre o papel de Maria na história da salvação. Embora ela tenha sido escolhida para ser a mãe de Jesus, não pode ser chamada de "Mãe de Deus" no sentido pleno. Essa distinção é importante para o entendimento correto da natureza de Cristo e da relação entre Deus e a humanidade.

Neste artigo, analisaremos as bases bíblicas e teológicas que sustentam essa posição. A interpretação reformada valoriza os textos das Escrituras que enfatizam a divindade de Cristo, reconhecendo que Jesus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. No entanto, essa dualidade da natureza de Cristo é entendida de forma a resgatar a singularidade da sua divindade, afastando qualquer atribuição à figura de Maria que possa sugerir uma coparticipação na divindade de Cristo.

  A Origem do Título "Mãe de Deus"

A designação de Maria como "Mãe de Deus" (Theotokos no grego) foi formalmente adotada no Concílio de Éfeso, em 431 d.C., como uma resposta às controvérsias cristológicas que permeavam as primeiras discussões sobre a natureza de Jesus Cristo. Alguns do temas abordados neste Concílio foram:

  • O concílio denunciou os ensinamentos de Nestório, patriarca de Constantinopla, como errôneos. Nestório defendia que Cristo era composto por duas pessoas, uma humana e outra divina, separadas.
  • O concílio decretou que Jesus era uma única pessoa, com uma natureza humana e outra divina, e não duas pessoas separadas.
  • O concílio declarou a Virgem Maria como Theotokos, ou seja, "Mãe de Deus", e não apenas como Cristokos, ou seja, "Mãe de Cristo".
  • O concílio condenou Eutiques e o Monofisismo.


O termo "mãe de Deus", que significa literalmente "Portadora de Deus", emergiu em um momento crucial da história da Igreja, durante as primeiras batalhas teológicas que buscavam definir a verdadeira natureza de Cristo. Este título passou a dar não apenas uma honra conferida a Maria, mas um conceito profundamente enraizado na fé cristã que visa afirmar a plena divindade em Maria. Ao reconhecer Jesus como divino e humano ao mesmo tempo, a Igreja fez mais do que reafirmar a unidade de sua pessoa; também colocou Maria em uma posição de destaque na narrativa da salvação.

Com a proclamada divindade de Cristo, Maria passou a ser considerada como uma figura central na teologia cristã, uma vez que sua maternidade estava diretamente ligada à encarnação do Verbo. Ao se referir a ela como "Mãe de Deus", a Igreja não estava apenas prestando homenagem à mãe de Jesus, mas também elevando sua importância teológica. Este reconhecimento de seu papel único, no entanto, não veio sem controvérsias. A crescente veneração a Maria gerou debates sobre a natureza de sua intercessão e a legitimidade de determinadas práticas devocionais. Em algumas tradições, o culto a Maria começou a ocupar um espaço considerável na vida espiritual dos fiéis, o que levou alguns teólogos a questionarem se isso não eclipsava a centralidade de Cristo na adoração cristã.

Essa discussão teológica foi acirrada, e muitos argumentavam que o título de "Mãe de Deus" poderia pôr em risco a visão singular de Jesus como o único mediador entre Deus e os humanos. Para algumas correntes do cristianismo, essa veneração excessiva poderia obscurecer a essência da fé cristã, destacando a necessidade de um equilíbrio saudável entre a reverência a Maria e a adoração a Cristo. A figura de Maria, enquanto mãe e serva escolhida, é reconhecida, mas sem o suporte de uma autoridade que a coloque em uma posição de influência sobre o divino. 

Em contrapartida, a visão reformada e evangélica apresenta uma crítica mais incisiva à ideia de que Maria possui status associado à divindade. Dentro dessa perspectiva, argumenta-se que o título "Mãe de Deus" pode levá-los a uma interpretação distorcida da relação entre Jesus e Sua mãe. A noção de que Maria poderia exercer qualquer tipo de controle ou influência sobre a natureza divina de Seu Filho é considerada problemática, pois contraria a compreensão bíblica de Deus como eterno, autossuficiente e sem princípio. Maria, como serva e instrumento de Deus para trazer o Salvador ao mundo é valorizada e respeitada, sua obediência e fé a tornaram digna de seu papel na história da salvação, mas ela não é vista como uma mediadora ou intercessora que participa da mesma natureza divina.

O debate sobre a figura de Maria e o seu título de "Mãe de Deus" ilustra a complexidade das relações teológicas dentro do cristianismo, refletindo um esforço contínuo da Igreja para equilibrar o papel de Maria e a primazia de Cristo na experiência e prática da fé. Essa tensão entre as tradições cristãs destaca a necessidade de um entendimento equilibrado sobre o papel de Maria. Enquanto algumas tradições elevam sua importância a níveis quase divinais, outras enfatizam a sua humanidade e seu papel como um meio pelo qual a Salvação se concretizou na pessoa de Jesus. Essa discussão não é apenas teológica, mas também reflete questões de prática de fé, idolatria e o verdadeiro significado da adoração dentro do cristianismo. Assim, a designação de Maria como "Mãe de Deus" é um ponto de controvérsia e reflexão, reflexo das diferentes interpretações sobre a encarnação e a natureza de Cristo.

 A Encarnação: O Mistério de Deus Feito Carne

Na teologia evangélica, a Encarnação é um dos temas centrais que expressam a profundidade do mistério da fé cristã. Ela é entendida como um ato supremo e gracioso de Deus, em que Cristo, a segunda pessoa da Trindade, se fez carne e assumiu a plena natureza humana. Essa doutrina é sumariamente registrada em João 1:14, onde lemos: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós", revelando a natureza divina de Cristo que se manifesta de forma terrena.

A escolha de Maria, conforme descrito nos evangelhos, é uma parte essencial desse relato da Encarnação. Deus a escolheu para ser a mãe de Jesus em sua natureza humana, o que a destaca no plano divino da salvação. Contudo, é crucial entender que essa escolha não implica que Maria tenha dado origem à divindade de Cristo. A teologia reformada, em particular, enfatiza que Cristo é "gerado, mas não criado", o que significa que sua natureza divina sempre existiu eternamente no seio da Trindade, antes de sua Encarnação.

O versículo em Gálatas 4:4 traz mais clareza ao afirmar: "Mas, vindo à plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei". Este trecho não apenas evidencia a veracidade da Encarnação, mas também revela o propósito de Deus de redimir a humanidade, enviando seu Filho de forma que ele se relacionasse plenamente com a condição humana, nascendo sob a mesma lei que governava o povo de Israel.

Além disso, o versículo de Lucas 1:35, que menciona a concepção de Jesus pela ação do Espírito Santo, completa essa imagem teológica. Ele estabelece que, embora Maria tenha sido escolhida como a mãe de Jesus, o ato da Encarnação foi inteiramente divino, garantindo que a natureza de Cristo fosse plenamente humana, mas sem pecado. Essa compreensão é fundamental para a doutrina cristã, pois ressalta a dualidade da natureza de Cristo: verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem.

A reverência à figura de Maria na tradição cristã é significativa, mas deve ser equilibrada com a compreensão adequada da sua função. O fato dela ser referida como "Mãe de Jesus" em sua forma humana, não deve levar à ideia de que Maria é a fonte da divindade de Jesus, dando a ela a importância de ser consequentemente a “Mãe de Deus”. Em vez disso, a sua humanidade ilustra a profundidade da experiência de Cristo, que se fez carne e habitou entre nós, trazendo a esperança e a redenção ao mundo. Assim, a Encarnação move-se além do conceito de nascimento físico; ela representa a chegada do Deus encarnado na história, um ato de amor divino em busca da reconciliação por meio da instrumentalidade humana, como já predito no Jardim do Éden em Gênesis 3.15: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta (referindo-se a semente e não a mulher) te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” Neste texto é importante destacar que a ênfase está na semente que viria por meio da mulher, e não na mulher como instrumento pelo qual ele viria ao mundo. A semente da mulher refere-se exatamente a encarnação de Cristo que pisaria na cabeça da serpente (o próprio diabo – veja Apocalipse 12.9 e 20.2) e consequentemente ele seria ferido no calcanhar (referência a crucificação de Jesus – veja Salmo 41.9 e compare com Mateus 26.14-16; Marcos 14.10-11; Lucas 22.1-6)

  A Imutabilidade de Deus

Um dos pontos centrais na teologia reformada é a imutabilidade e eternidade de Deus, conceitos que têm profundas implicações sobre nossa compreensão da divindade. A imutabilidade refere-se à natureza de Deus como sendo constante e sem variações; Ele não muda em Suas características, Seus propósitos ou Sua essência. Por outro lado, a eternidade de Deus indica que Ele existe além do tempo e do espaço, não estando limitado a começo, meio ou fim. Assim, se Deus é eterno, não faz sentido afirmar que Ele pode ter uma mãe, uma vez que isso implicaria que antes de Maria, Deus não existia ou não tinha uma forma de ser.

Em Salmos 90:2, encontramos um testemunho poderoso dessa verdade: "Antes que os montes nascessem e que tu formasses a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus". Este versículo nos revela que Deus não foi criado nem originado em um ponto específico da história, mas que Ele sempre existiu, independentemente de qualquer circunstância. A ideia de que uma criatura, mesmo tão exaltada quanto Maria, possa ocupar o papel de mãe de Deus é, portanto, uma contradição à Sua natureza imutável e eterna.

A teologia reformada enfatiza ainda que, embora Jesus, na Sua encarnação, tenha assumido uma natureza humana e, portanto, possa ser referido como Filho de Maria, isso não deve ser confundido com a eternidade de Sua divindade. A encarnação é um mistério sublime da fé, mas não altera a essência de quem Deus é.

Dessa forma, podemos ver que a doutrina da imutabilidade e eternidade de Deus não serve apenas como um princípio teológico abstrato; ela molda nossa compreensão sobre a relação entre Deus e a criação. A afirmação de que Maria é a Mãe de Deus, portanto, pode, sob essa ótica, desestabilizar não apenas a transcendência de Deus, mas também a singularidade do seu poder e autoridade. Já que, se acreditarmos que Maria é mãe de Deus, então ela teria que ser a primeira antes dEle. Embora, o argumento de que Jesus é Deus, e consequentemente, isso faz de Maria “mãe de Deus, não condiz com o teologia bíblica. Maria, é mãe de Jesus na sua humanidade, e instrumento para trazer Jesus ao mundo na sua divindade, por isso, sua concepção foi algo sobrenatural, foi pela ação do Espírito Santo que Jesus veio ao mundo (Mateus 1.20 e Lucas 1.35).

 A Intercessão e o Papel de Maria

A prática católica de invocar a intercessão de Maria é uma tradição profundamente enraizada na fé de muitos cristãos, que a veem como uma mãe compassiva e uma intercessora poderosa junto a seu Filho (muitos utilizam o texto de João 2.1-12 para dar base a intercessão de Maria, inclusive com uma frase que diz: Pede a mãe que o Filho atende). No entanto, é essencial ver o fundamento bíblico dessa prática à luz das Escrituras, especialmente quando consideramos o papel único que Cristo desempenha na comunicação entre Deus e a humanidade.

A passagem de 1 Timóteo 2:5 é clara ao afirmar: "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem" e também em Atos 4.12 está escrito: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.” O texto de Atos faz referência a pessoa de Jesus (vide o verso 10 deste capítulo). Essa declaração enfatiza não apenas a singularidade de Cristo como Mediador, mas também a plenitude de sua obra redentora. Como o único Mediador, Jesus Cristo é aquele que, através de seu sacrifício, abre o caminho para que os fiéis se aproximem de Deus. Essa afirmação levanta importantes questionamentos sobre o papel de outros intercessores, como Maria. O Catecismo da Igreja Católica ensina que os fiéis podem pedir aos santos que intercedam por eles. É uma maneira de reconhecer a proximidade dos santos com Deus e de buscar apoio espiritual em momentos de necessidade. Essa prática é contrária à relação direta que cada fiel tem com Jesus.

Embora Maria tenha sido escolhida por Deus para dar à Luz Jesus e tenha desempenhado um papel fundamental na história da salvação, a Escritura nos ensina que sua função não deve ser confundida com a mediação que Jesus oferece. A intercessão de Maria, embora respeitada e valorizada por muitos que assim acreditam, não substitui e até conflita com a centralidade de Cristo em nossa vida espiritual. É através de Jesus que temos acesso direto ao Pai, e é por meio dele que nossas orações são apresentadas a Deus (veja João 14.6 e Hebreus 4.14-16; 9.11-15; 10.19-23).

Embora a Bíblia nos exorte a orarmos uns pelos outros (Tiago 5:16 - no caso, o texto refere-se a intercessão dos vivos e não do que já morreram) e a buscar a intercessão de outros crentes, temos que ter sempre a consciência de que, toda intercessão é feita somente na autoridade e na obra de Cristo. Em Romanos 8:34, por exemplo, Paulo nos lembra que "Cristo Jesus é aquele que morreu, e mais, que ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós", reafirmando a ideia de que Ele é nosso único intercessor junto ao Pai.

Portanto, embora a devoção a Maria possa trazer conforto e inspiração espiritual para muitos, é fundamental manter a clareza sobre a primazia de Cristo em todas as áreas da vida cristã. Essa prática à luz das Escrituras não só fortalece a compreensão da singularidade da obra de Cristo, mas também enriquece a própria relação dos crentes com Deus, concentrando-se na verdadeira fonte de graça e intercessão que é Jesus. Assim, podemos honrar Maria como uma figura de fé exemplar, mas não podemos obscurecer o papel central que Cristo desempenha em nosso relacionamento com Deus.

Conclusão

A posição reformada e evangélica sobre Maria destaca a importância de entender seu papel na narrativa cristã de maneira a preservar a integridade das doutrinas fundamentais da fé. Enquanto mãe de Jesus, Maria tem um lugar de honra como uma mulher fiel que cumpriu o chamado divino de ser a mãe do Salvador (Lucas 1.46-47, este texto de Lucas mostra Maria engrandecendo a Deus como Salvador, mostrando que Maria sabia bem qual era o seu papel e que assim como todos, ela também precisava de salvação). É crucial reconhecer que ela não deve ser chamada de "Mãe de Deus" no sentido que poderia sugerir igualdade ou uma relação de criação entre Maria e a divindade de Cristo. Essa distinção ajuda a evitar confusões sobre a natureza de Cristo, que é tanto plenamente divino quanto plenamente humano.

O título "Mãe de Deus" poderia insinuar que Maria teve algum tipo de domínio sobre a divindade ou que ela é co-partícipe da divindade, o que é contrário a doutrinas cristãs centrais que afirmam a onipotência, a eternidade e a imutabilidade de Deus. A ideia de que Maria é uma mediadora ou uma intercessora não se alinha com a compreensão reformada de que Cristo é o único mediador entre Deus e os homens, conforme vimos nos texto citados.

Ao enfatizar que a adoração e a mediação pertencem exclusivamente a Cristo, nossa fé fica ancorada na obra redentora que Ele realizou na cruz, afirmando a soberania de Deus na salvação e a centralidade de Jesus na vida do crente. A compreensão correta do papel de Maria nos permite valorizar sua fé e obediência, mas sem desviar o foco da verdadeira fonte de nossa salvação, que é Jesus.

Assim, a posição reformada e evangélica sobre Maria não apenas honra sua vida e seu papel na história da salvação, mas também reforça a necessidade de manter a pureza e a profundidade da revelação bíblica, assegurando que a glória e a adoração sejam direcionadas exclusivamente a Deus, através de seu Filho, Jesus Cristo. Essa abordagem nos desafia a cultivar um relacionamento pessoal com Cristo, reconhecendo sua supremacia e a importância de viver de acordo com os ensinamentos das Escrituras.

 

Aqui estão algumas referências bibliográficas que podem ser úteis para o tema abordado no seu texto sobre Maria, mãe de Jesus, com foco em uma perspectiva bíblica e teológica:

 Livros

 1. Morris, Leon. “The Birth of Jesus: Understanding the Nativity.” Zondervan, 2010.

   - Este livro analisa os relatos da natividade em Lucas e Mateus, abordando a figura de Maria no contexto da biblical.

 2. Erickson, Millard J. “Christian Theology.” Baker Academic, 2013.

   - Este é um tratado abrangente sobre a teologia cristã, incluindo discussões sobre a encarnação e a natureza de Cristo, o papel de Maria e a salvação.

 3. Packer, J.I. “Knowing God.” InterVarsity Press, 1993.

   - Embora não focado exclusivamente em Maria, este livro discute a natureza de Deus e a importância de Cristo, desafiando a perspectiva de adoração a figuras além de Deus.

 4. Luther, Martin. “Sermon on the Nativity of Christ.” In: Luther’s Works, Vol. 51: The Sermons of Martin Luther – Vol. II.”** Concordia Publishing House, 1999.

   - Este sermão de Martinho Lutero aborda a natividade e fornece uma visão reformada sobre o papel de Maria.

 5. Bottini, Marcos. “Maria, Mãe de Jesus: Uma Perspectiva Evangélica.” Editora Vida Nova, 2012.

   - Uma análise da figura de Maria a partir da perspectiva evangélica, discutindo sua importância e suas implicações teológicas.

 Artigos Acadêmicos

 1. Becker, Lydia. "Mary in the New Testament: Theological Reflections."** *Theological Studies*, vol. 72, no. 4, 2016, pp. 743-762.

   - Este artigo discute a figura de Maria no Novo Testamento e suas implicações teológicas.

 2. Dahl, Nils Alstrup. "The Portrayal of Mary in the NT and in the Early Church."** *New Testament Studies*, vol. 25, no. 2, 1979, pp. 210-224.

   - Investigação sobre o retrato de Maria nos textos do Novo Testamento e na Igreja primitiva.

 Sites e Recursos Online

 1.The Gospel Coalition - "Mary: A Mother of Our Savior."** Acesso em: https://www.thegospelcoalition.org

   - Artigos e materiais sobre a figura de Maria e sua relevância na teologia da salvação cristã.

 2. Desiring God - "Is Mary the Mother of God?"** Acesso em: https://www.desiringgod.org/articles/is-mary-the-mother-of-god

   - Uma discussão sobre o título "Mãe de Deus" e suas implicações.

 3. Ligonier Ministries - "What is the Role of Mary in our Salvation?"** Acesso em: https://www.ligonier.org/learn/devotionals/what-role-mary-our-salvation

   - Um artigo que explora o papel de Maria na teologia reformada, focando na centralidade de Cristo.

4.https://www.paulus.com.br/portal/maria-a-santa-mae-de-deus/#:~:text=Conforme%20ensina%20a%20Doutrina%20da,Ele%20mesmo%20%C3%A9%20Deus%E2%80%9D.

    - Artigo que aborda na perspectiva católica a figura de Maria como a Mãe de Deus

 Essas referências podem ajudar a aprofundar a discussão sobre Maria e sua relação com os conceitos de divindade, salvação e intercessão no contexto da teologia cristã.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Onde Deus estava quando eu mais precisava Dele: Uma reflexão sobre a Fé e as adversidades da vida - Salmo 22.1-2

 

Todos nós enfrentamos momentos de dificuldade e desespero em nossas vidas. É nesses períodos que frequentemente nos perguntamos: "Onde estava Deus quando eu mais precisei dele?"  Nos períodos de dor, perda ou desespero, a sensação de abandono pode ser avassaladora. Esse questionamento ressoa profundamente tanto em crentes quanto em aqueles que buscam compreender a complexa relação entre a fé e as provações da vida. Para aqueles que acreditam em Deus, a fé muitas vezes é o único suporte em meio às tempestades da vida, e mesmo para os que dizem não acreditar, mas buscam algo em que possa se apoiar.

Desde a entrada do pecado no mundo, o sofrimento é uma constante em nossas vidas, isso veio como consequência da desobediência a ordem dada por Deus.  Todos nós enfrentamos crises, sejam emocionais, financeiras ou de saúde. Em meio a essas adversidades, muitos buscam apoio e esperança em algo maior, e é nesse contexto que a relação com Deus se torna vital. Diversos textos da Bíblia abordam essa temática, destacando como a fé pode servir como um alicerce em tempos de tribulação. Um dos aspectos mais desafiadores dessa relação é o chamado "silêncio de Deus". Quando passamos por provações, a ausência de respostas imediatas muitas vezes gera frustração e desespero. O Salmo 22:1, onde Davi clama: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?", reflete essa angústia. Porém, a obra de Davi não termina no desespero; sua lamentação culmina em confiança na fidelidade de Deus e um retorno à adoração.

A história mais conhecida na narrativa bíblica que aborda a questão do sofrimento, é com certeza, a história de Jó, encontrada no Antigo Testamento, é um relato profundo sobre sofrimento, fé e a busca por compreensão diante da dor. Conhecido por sua retidão e felicidade, Jó enfrenta uma série de perdas devastadoras — seus bens (Vida financeira), seus filhos (relacionamentos) e sua saúde. Ao longo de sua história, ele questiona a Deus em busca de respostas, expressando uma luta interna que muitos de nós também fazemos.  

A experiência de Jó nos ensina que a presença de Deus não é sempre visível, especialmente em momentos de dor extrema. Ao longo dos capítulos que narram o sofrimento de Jó, vemos que ele não hesita em questionar a Deus. Ele expressa sua confusão, seu desespero e sua necessidade de respostas. Jó nos ensina que a fé não precisa ser uma crença cega. Ele não é repreendido por suas perguntas; pelo contrário, seus questionamentos refletem uma busca genuína pela verdade. Através de suas lamentações e diálogos, Jó revela que o sofrimento provoca a busca por significado dos acontecimentos na vida. A relação entre fé e vida é complexa. A vida é repleta de incertezas e sofrimento, e muitas vezes a oração parece não ser respondida da forma como esperamos. Ao final de sua jornada, ao invés de receber uma explicação clara, ele é confrontado com a grandeza e a soberania de Deus, aprendendo a confiar mesmo sem entender totalmente.

A Bíblia oferece múltiplas perspectivas sobre a fé em tempos difíceis. Em Salmo 34:18, lemos que "Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado". Isso enfatiza a proximidade de Deus em momentos de dor, sugerindo que mesmo quando não sentimos Sua presença, Ele está ao nosso lado. Ao longo da história, milhões de pessoas enfrentaram e enfrentam crises semelhantes. Cada história de dor e cada questionamento pode ser um passo em direção a uma fé mais profunda. A Bíblia encoraja que, mesmo em meio à incerteza, é possível encontrar consolo e força na crença de que Deus está presente, mesmo quando parece ausente. Romanos 5:3-4 destaca que "a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança." Essa passagem sugere que os desafios não são apenas obstáculos, mas oportunidades para amadurecimento espiritual. Nossa jornada de fé muitas vezes é fortalecida por meio da adversidade. Deus não prometeu que não teremos dificuldades, mas garantiu que Ele está conosco em cada passo da jornada. No Salmo 22, citado acima, é importante notar que o desespero não é o fim da história; acompanhando a lamentação, a obra de Davi continua com a dúvida transformando-se em confiança na fidelidade de Deus, resultando em um retorno à adoração.

A Bíblia oferece diversas perspectivas sobre o papel da fé nos altos e baixos da vida. Em Hebreus 11:1, está escrito: "A fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos." Este versículo sugere que a fé não é apenas um recurso nas dificuldades, mas também uma forma de enxergar além das circunstâncias imediatas. A fé, portanto, pode ser vista como a capacidade de manter a esperança mesmo em meio à incerteza, continuar sendo fiel a Deus e confiar na sua Palavra. A Bíblia nos ensina que a fé é muitas vezes testada em momentos de tribulação, pois é em situações assim, que revelamos onde está o nosso coração e se a fé que dizemos ter em Deus é verdadeira e sincera.

A Bíblia, em seu todo, nos oferece uma esperança renovadora que vai culminar na pessoa de Jesus Cristo. No Novo Testamento, Jesus não é apenas a resposta a muitas perguntas, mas também a manifestação do amor e da esperança que Deus oferece à humanidade. Nos momentos de angústia e solidão, Jesus nos convida a encontrar consolo e força em Sua presença. No Novo Testamento, Jesus emerge como a resposta que muitos buscam. Sua vida, morte e ressurreição oferecem uma nova esperança e um profundo consolo em tempos de dor. Jesus não apenas enfrentou o sofrimento, mas superou-o, tornando-se um símbolo de esperança eterna e transformação. O apóstolo Paulo nos lembra em 2 Coríntios 4:17 que "a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória muito mais excelente", sugerindo que o sofrimento pode ter um propósito e que somos moldados por meio da fé. Neste contexto, a relação entre fé e vida se torna clara: a fé não é apenas um refúgio em tempos de crise, mas uma fonte de força e resiliência que nos permite enfrentar as tempestades da vida. A história de Jó e a promessa da ressurreição em Jesus nos lembram que, apesar das circunstâncias, Deus está presente e ativo em nossa vida. A fé nos convida a olhar além da imediata dor e a confiar na providência divina, mesmo quando as respostas não são aparentes. Portanto, ao nos perguntarmos "onde estava Deus quando eu mais precisei Dele?", encontramos consolo na certeza de que Ele nunca nos abandonou.  A trajetória de Jó nos ensina que o questionamento é parte do processo de fé e que, mesmo quando nos sentimos sozinhos, Ele está ao nosso lado, e a vida de Cristo nos mostra que a maior dor e a maior perda que alguém pode sentir e ter, é não desfrutar da Presença de Deus por causa do pecado. Em Adão, o pecado entrou no mundo e com ele a dor, o sofrimento e a morte. Mas em Cristo, que suportou a dor, enfrentou o sofrimento e venceu a morte, nossa esperança é renovada e nos é dado um novo e verdadeiro significado para a Vida. Assim, a relação entre fé e vida revela que, apesar das dificuldades, Deus está presente e ativo em nossa vida. A fé serve não apenas como um refúgio, mas como uma fonte de força que nos permite enfrentar as tempestades da vida. Que cada um de nós possa reconhecer essa presença divina, mesmo nas horas mais sombrias, e encontrar esperança na promessa de que, em meio à dor, existe uma oportunidade de crescimento, renovação e uma nova vida com Deus através de Cristo, que sofreu por causa de nossos pecados e morreu a nossa morte para nossa dar a vida e vida eterna. Quando enfrentarmos dificuldades, que possamos nos lembrar da presença constante de Deus e acolher a esperança que Ele nos dá. A fé e a vida não são dissociadas; elas caminham juntas, moldando nossa jornada e nos guiando em direção a um amanhã cheio de esperança. Um amanhã em que aguardamos a promessa de que Deus enxugará dos olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Todas essas coisas passarão para sempre. Quando enfrentarmos dificuldades, que possamos nos lembrar da presença constante de Deus e acolher a esperança que Ele nos dá em seu Filho Jesus. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

O Pecado de Maria, Mãe de Jesus: Uma Reflexão Teológica

A figura de Maria, mãe de Jesus, ocupa um lugar central na tradição cristã, especialmente dentro da Igreja Católica e das denominações ortodoxas. Com o tempo, ela foi objeto de inúmeras doutrinas e dogmas que exaltam sua santidade e pureza, como a Virgindade Perpétua e a Imaculada Conceição. No entanto, é importante questionar essas doutrinas à luz da teologia bíblica e da compreensão da natureza humana. Maria, assim como qualquer outro ser humano, não está isenta do pecado, como afirmam os princípios que sustentam essas crenças.

 A Questão da Virgindade Perpétua

A ideia de uma concepção virginal foi construída pela História e pela Teologia ao longo dos séculos seguintes - e há variações de compreensão disso, de acordo com a denominação religiosa praticada.

Analisando essa evolução, o que parece é que para os primeiros seguidores de Cristo, aqueles que conviveram com ele e possivelmente conheceram sua mãe, esta questão não se apresentava como relevante.

A doutrina da Virgindade Perpétua afirma que Maria permaneceu virgem antes, durante e após o nascimento de Jesus. No entanto, a Bíblia apresenta diversas passagens que indicam o contrário. Em Mateus 1:25, diz-se que José não conheceu Maria "até que ela deu à luz um filho". O uso do termo "até" sugere que, após o nascimento, a relação conjugal foi normalizada. Além disso, os evangelhos mencionam que Maria e José tiveram outros filhos (Mateus 13:55-56). A ideia de uma virgindade perpetuada pode ser vista mais como uma construção teológica do que uma realidade bíblica.

O dogma da Virgindade Perpétua de Maria possui fundamento teológico baseado na Tradição da Igreja e não nas Escrituras Sagradas, que afirma claramente que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23), e que “Quando Adão pecou, o pecado entrou no mundo, e com ele a morte, que se estendeu a todos, porque todos pecaram.” (Rm 5.12). A Virgindade Perpétua de Maria foi proclamada no Concílio Regional de Latrão, em 649. O protoevangelho de Tiago, embora não seja escritura canônica, é um documento escrito no século II d.C., não muito depois do fim da vida terrena de Maria, este documento faz um grande esforço para defender a virgindade perpétua de Maria.

A Igreja Católica Romana vê Maria como “a Mãe de Deus” e “Rainha do Céu”. Os católicos creem que Maria tem um lugar exaltado no Céu, com o mais estreito acesso a Jesus e a Deus o Pai. Tal conceito não é ensinado, em lugar algum, nas Escrituras. Mas mesmo que Maria ocupasse esta posição tão exaltada, ter ou não ter tido relações sexuais não teria impedido que ganhasse tal posição. O sexo dentro do casamento não é pecado. Maria não teria, de forma alguma, se degradado por ter relações sexuais com José, seu marido. 

 A Imaculada Conceição

A crença de que Maria nasceu sem pecado original, ou seja, imaculada, também levanta questionamentos. A tradição católica baseia-se no dogma estabelecido em 1854 por Pio IX. Contudo, a Escritura Sagrada, especialmente em Romanos 3:23, afirma que "todos pecaram e carecem da glória de Deus". Esta visão universal do pecado é fundamental na narrativa cristã: todos, sem exceção, estão sujeitos à condição humana caída. Além disso, a própria Maria é retratada no Evangelho como uma pessoa que, em momentos de dúvida e questionamento, demonstrou uma necessidade de fé e confiança em Deus. Em Lucas 1:38, sua resposta ao anjo Gabriel, "sou serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra", reflete uma aceitação da vontade divina, mas não denota uma pureza isenta de dúvida ou pecado. Ao contrário, essa resposta pode ser interpretada como uma demonstração de sua humanidade. Para que Maria fosse preservada do pecado deveria haver uma conceição imaculada em cadeia em seus pais. Somente Jesus foi preservado, pois foi gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria sem a participação de homem algum. Já Maria foi gerada por pais naturais, numa concepção natural manchada pelo pecado. Também a santidade de Jesus não depende de sua relação com sua mãe. No evangelho de Lucas 1.46-47 está registrado o chamado Magnificat ou Cântico de Maria. Nestes versos ela exalta a Deus e o reconhece como seu Salvador, se Maria tivesse nascido sem pecado, qual seria a necessidade de um Salvador?

A expressão "A minha alma engrandece ao Senhor" é um ato de louvor e adoração, onde Maria exalta a grandeza do Senhor. Esse reconhecimento indica a humildade e a gratidão de Maria diante da grandeza de Deus e da obra que Ele está realizando por meio dela.

Quando Maria se refere a Deus como "meu Salvador", ela demonstra uma compreensão profunda da necessidade humana de salvação. Esse reconhecimento não é apenas pessoal, mas também teológico, pois implica que ela reconhece seu estado de pecado e a necessidade de intervenção divina na vida de todos. Maria não se vê como alguém que alcançou a salvação por suas próprias forças, mas como alguém que é beneficiada pela graça de Deus.

Além disso, ao chamar Deus de seu Salvador, Maria identifica-se com a condição do povo de Israel, que aguardava a vinda do Messias e a realização das promessas de libertação e redenção. Sua alegria reflete não só uma experiência pessoal, mas também a esperança coletiva de um povo que anseia pela salvação que Deus prometeu.

 A Natureza Humana e o Pecado

A teologia cristã tradicional sustenta que Jesus é plenamente divino e plenamente humano. Se Maria fosse isenta do pecado, isso poderia levar à implicação de que ela possuía uma natureza superior à humana comum. Contudo, o cristianismo afirma que todos os seres humanos são falhos e necessitados da graça de Deus para a salvação (Efésios 2:8-9). Ao considerar Maria apenas como uma serva de Deus e não como uma figura sem pecado, reafirma-se a doutrina da redenção, que é o coração do evangelho. Maria é apresentada não como uma deidade, mas como uma escolhida por Deus para uma missão específica. Sua aceitação do papel de mãe de Jesus está repleta de humildade e coragem. Isso pode inspirar os cristãos a reconhecerem sua própria condição de pecadores e a necessidade de um Salvador.

 Conclusão

A exaltação de Maria como imaculada e perpetuamente virgem não encontra respaldo suficiente nas Escrituras e pode desviar a atenção do papel central de Jesus Cristo na salvação, pois os que assim creem neste dogma passam a atribuir a Maria o papel de mediadora e intercessora acima de Jesus, o que contraria o que as Escrituras Sagradas ensinam (Jo 14.6; Atos 4.12; 1Tm 2.5-6). Ao reconhecer Maria como uma mulher comum, que também experimentou a fragilidade e os desafios da natureza humana, pode-se celebrar sua grandeza em ter aceitado ser a mãe do Salvador, sem atribuir a ela uma natureza superior àquela de qualquer outro ser humano, e sem desmerecer o privilégio que lhe fora concedido por Deus de ser o instrumento pelo qual o Salvador veio ao mundo (Gn 3.15; Gl 4.4).

Assim, a reflexão sobre o pecado de Maria não diminui seu papel na história da salvação, mas o coloca em um contexto que revela a beleza da graça divina: que mesmo os mais simples e imperfeitos são instrumentos poderosos nas mãos de Deus.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Uma mensagem de esperança em meio a aflição: uma breve reflexão sobre a grandeza de Deus e sua bondade para com seu povo - Isaías 40

No geral, Isaías 40 é um capítulo que enfatiza a esperança e o conforto da promessa de salvação de Deus. Serve como um lembrete de que o poder e a fidelidade de Deus são maiores do que qualquer sofrimento ou dificuldade humana. O capítulo retrata Deus como um pai amoroso e compassivo que conforta seu povo em sua angústia e traz sua libertação. Em última análise, Isaías 40 nos aponta para a necessidade de confiança e fé em Deus, e a certeza de que suas promessas serão cumpridas em seu tempo e à sua maneira.

O Cap. 40 de Isaías começa com a seguinte declaração: “Consolai, consolai o meu povo...” Essas palavras ecoam um chamado de um Pai que se preocupa com seus filhos que estão passando por angústia e aflição. É como um abraço caloroso em meio as tormentas da vida. Deus não apenas observa as aflições do seu povo, mas se inclina em direção a eles com palavras de alívio e encorajamento. Ele promete consolo em meios as adversidades da vida. A fonte desse consolo é o próprio Deus (v.2).

Deus fala aqueles que estão desanimados, amedrontados e desapontados com as aflições que estão passando. Pessoas que lutam contra uma maré de dificuldades. Muitos que até mesmo deixaram de acreditar (embora ainda não tenham perdido completamente a fé). Deus lhes apresenta argumentos para provar que Ele é Deus e está sempre cuidando dos seus. Após falar sobre a fragilidade humana, o Senhor fala com seu povo trazendo esperança e renovação (v. 6-11).

  • As obras de Deus (v. 12): Deus é poderoso para fazer coisas maravilhosas que estão além da nossa compreensão, Ele é o Criador, este é o seu Deus;
  • A sabedoria de Deus (v.13-14): Deus é aquele que detém todo conhecimento e não há nada que alguém lhe possa ensinar. Sua sabedoria é infinita e superior a todo conhecimento humano, este é o seu Deus;
  • A soberania de Deus (v.15-17,22-24): todos os governos estão sujeitos a autoridade e soberania de Deus (Rm 13.1). Não precisamos temer os governos pois todos eles são instituídos pelo Senhor para a realização de seu propósito. Os governantes cujas leis e políticas determinam o bem-estar de milhões. Pensa que eles são alguma coisa para Deus, pensa que são eles que determinam como as coisas são? Deus é maior que todos os líderes e personalidades do mundo. Deus é tão maior que todas as nações que elas não são nada para Ele, este é o seu Deus;
  • A singularidade de Deus (v.18-21): nossos pensamentos a respeito de Deus não são suficientemente grandes, deixamos de reconhecer a realidade de seu poder e sabedoria. Somos seres finitos e fracos que em nossas mentes corrompidas queremos comparar a sua glória as coisas criadas.
  • O universo criado (v.25-26): uma das experiências mais deslumbrantes é contemplar as estrelas, nada nos faz sentir que somos tão pequenos em nossa insignificância. Ao tentar compreender a imensidão do universo ficamos estarrecidos diante de tamanha grandeza. Mas, o que é isto para Deus? Aquele que dá nome as estrelas e põe em ordem as Vias Lácteas. Tão grande é o seu poder e sua força que nada se compara a Ele. Deus mostra as estrelas, foi Ele quem as colocou no espaço, Ele é o Criador e Senhor do universo, tudo está sujeito a sua vontade. Tamanho é o seu poder e majestade, este é o seu Deus;
  • Quem é Deus (v.27-31): Ele é o eterno, o Criador, o sustentador e fortalecedor de nossa vida, de que reclamamos? Somos lentos em crer (confiar) em Deus como Deus, aquele que é, e que sempre será Deus. Aquele em quem devemos colocar toda nossa esperança e meditar em sua majestade e grandeza, para que nossas forças sejam renovadas e suas Palavras fiquem gravadas em nosso coração.

 Este é o seu Deus.

Isaías 40 é uma fonte de esperança que transcende os séculos. Em tempos de desafios, incertezas e lutas pessoais e coletivas, em que muitas vezes nos sentimos cansados, desanimados e até mesmo perdidos em meio as agitações deste mundo e do nosso coração. Isaías nos leva a olhar além das circunstâncias. A mensagem do Deus eterno e sua Palavra imutável, suas promessas e seu amor nos convidam a reavivar nossa confiança em Deus e a encontrar esperança na sua Promessa: Há um caminho que está acima de todas as circunstâncias, que nos renova e nos sustenta em nossas fraquezas e no oferece um caminho de esperança e renovação, e este Caminho é Jesus.

Quando se sentir fraco, desanimado, abatido e com a fé vacilante, lembre-se daquele que suportou a cruz em seu lugar e recebeu sobre si toda a ira que lhe estava destinada, para que você pela fé tenha a plena certeza da vitória que Ele conquistou através de sua morte e ressurreição.


segunda-feira, 6 de maio de 2024

Busque ao Senhor enquanto se pode achar - Isaías 55.6

 

Rio Grande do Sul

Show da Madona

Diante da maior tragédia que está acontecendo no Rio Grande do Sul, ainda existem aqueles que fazem pouco caso e fingem que nada está acontecendo. É lamentável que, enquanto vidas estão sofrendo e pessoas estão morrendo, outros ainda participem de um show depravado e que faz pouco caso da fé de muitos. Tudo isso, apenas pelo dinheiro, fama, status e a pura imoralidade escancarada.

Mas, mas como já dizia o escritor de Eclesiastes: A história simplesmente se repete. O que foi feito antes será feito outra vez. Nada debaixo do sol é realmente novo. De vez em quando, alguém diz: "Isto é novidade!". O fato, porém, é que nada é realmente novo.” (Ec 1.9-10). Desde a queda no Éden, o ser humano carrega dentro de si, a semente do orgulho e da vaidade.

Por deixar de ouvir a voz do Criador e dar ouvidos a voz do tentador, o ser humano escolhe seu caminho de acordo com seus desejos e vontades corrompidos, e que o fim será a morte.

Há caminhos que a pessoa considera corretos, mas que acabam levando à estrada da morte.” (Pv 14.12)

Não haverá desculpas quando tiverem de prestar contas de suas vidas ao Criador, e o destino deles é certo, o tormento eterno. Podem até desfrutar de seus prazeres momentâneos aqui na terra, mas na eternidade irão sofrer para sempre.

Assim, Deus mostra do céu sua ira contra todos que são pecadores e perversos, que por sua maldade impedem que a verdade seja conhecida. Sabem a verdade a respeito de Deus, pois ele a tornou evidente. Por meio de tudo que ele fez desde a criação do mundo, podem perceber claramente seus atributos invisíveis: seu poder eterno e sua natureza divina. Portanto, não têm desculpa alguma. Sim, eles conheciam algo sobre Deus, mas não o adoraram nem lhe agradeceram. Em vez disso, começaram a inventar ideias tolas e, com isso, sua mente ficou obscurecida e confusa. Dizendo-se sábios, tornaram-se tolos. Trocaram a grandeza do Deus imortal por imagens de seres humanos mortais, bem como de aves, animais e répteis. Por isso, Deus os entregou aos desejos pecaminosos de seu coração. Como resultado, praticaram entre si coisas desprezíveis e degradantes com o próprio corpo. Trocaram a verdade sobre Deus pela mentira. Desse modo, adoraram e serviram coisas que Deus criou, em lugar do Criador, que é digno de louvor eterno! Amém. Por isso, Deus os entregou a desejos vergonhosos. Até as mulheres trocaram sua forma natural de ter relações sexuais por práticas não naturais. E os homens, em vez de ter relações sexuais normais com mulheres, arderam de desejo uns pelos outros. Homens praticaram atos indecentes com outros homens e, em decorrência desse pecado, sofreram em si mesmos o castigo que mereciam. Uma vez que consideraram que conhecer a Deus era algo inútil, o próprio Deus os entregou a um inútil modo de pensar, deixando que fizessem coisas que jamais deveriam ser feitas. A vida deles se encheu de toda espécie de perversidade, pecado, ganância, ódio, inveja, homicídio, discórdia, engano, malícia e fofocas.  Espalham calúnias, odeiam a Deus, são insolentes, orgulhosos e arrogantes. Inventam novas maneiras de pecar e desobedecem a seus pais. Não têm entendimento, quebram suas promessas, não mostram afeição nem misericórdia.  Sabem que, de acordo com a justiça de Deus, quem pratica essas coisas merece morrer, mas ainda assim continuam a praticá-las. E, o que é pior, incentivam outros a também fazê-lo. (Rm 1.18-32)

O juízo de Deus sobre a vidas dos que seguem este caminho é certo: “Mas, por causa de seu coração rebelde, você se recusa a abandonar o pecado, acumulando ira sobre si mesmo. Pois o dia da ira se aproxima, quando o justo juízo de Deus se revelará. Ele julgará cada um de acordo com seus atos.  Dará vida eterna àqueles que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade.  Mas derramará ira e indignação sobre os que vivem para si mesmos, que se recusam a obedecer à verdade e preferem entregar-se a uma vida de perversidade.” (Rm 2.5-8).

A indignação diante de tamanho contraste reflete um coração que clama por justiça. Como o profeta Habacuque, há muitos que gritam:

Até quando, Senhor, terei de pedir socorro?  Tu, porém, não ouves.  Clamo: "Há violência por toda parte!", mas tu não vens salvar. Terei de ver estas maldades para sempre? Por que preciso assistir a tanta opressão? Para qualquer lugar que olho, vejo destruição e violência. Estou cercado de pessoas que discutem e brigam o tempo todo. A lei está amortecida, e não se faz justiça nos tribunais. Os perversos são mais numerosos que os justos e, com isso, a justiça é corrompida. (Hc 1.2-4).

A resposta de Deus diante desse clamor, é que Esta é uma visão do futuro; descreve o fim, e tudo se cumprirá. Se parecer que demora a vir, espere com paciência, pois certamente acontecerá; não se atrasará. "Olhe para os arrogantes, os perversos que em si mesmos confiam; o justo, porém, viverá por sua fidelidade a Deus. (Hc 2.3-4)

A Bíblia é muito clara em dizer: "Porque Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3.16)

Toda dor e sofrimento que carregamos nesta vida não se compara ao sofrimento que Jesus teve de carregar na cruz, suportando toda a ira de Deus contra o pecado. Para os que reconhecem e aceitam este sacrifício como único meio de salvação, terão a eternidade na Presença de Deus, mas para os que o rejeitam e preferem continuar vivendo suas vidas alienados de Deus, a estes virá o juízo e irão ouvir da boca do próprio Senhor: “‘Fora daqui malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos.” (Mt 25.41)

Então, mesmo diante de tanta tragédia, corrupção, sofrimento que ainda passaremos nesta vida, nada se compara com a Glória reservada para aqueles que entregaram suas vidas a Cristo. Para estes, Deus traz a palavra de esperança: “Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: "Vejam, o tabernáculo de Deus está no meio de seu povo! Deus habitará com eles, e eles serão seu povo. O próprio Deus estará com eles. Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Todas essas coisas passaram para sempre".  E aquele que estava sentado no trono disse: "Vejam, faço novas todas as coisas!". Em seguida, disse: "Escreva isto, pois o que lhe digo é digno de confiança e verdadeiro". (Ap 21.3-5)