quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Realidade X Fantasia: a tecnologia como portal para o mundo irreal

A era digital tem revolucionado as relações humanas, permitindo que as pessoas conheçam, cultivem amizades, mantenham relações sexuais, exerçam profissões ou até pratiquem violência. Essa desconexão da realidade, embora facilitadora, enfraquecem a solidez da realidade e aumenta as ilusões sedutoras. Não é coincidência que, em um contexto cultural obcecado por potencialidades e expectativas, a fantasia ganhe destaque como fuga da realidade. Hollywood, pioneira na venda de sonhos há mais de um século, migrou de narrativas realistas para universos de super-heróis e reinos imaginários, como os vistos em Avatar, Harry Potter e Matrix. Os expectadores, imersos nesses mundos, revelam um anseio: habitar como heróis invencíveis ou atravessar portais para realidades alternativas.

O Boom dos jogos e a reinvenção do Eu

Essa tendência se intensifica nos videogames, cuja indústria bilionária confere-lhes legitimidade acadêmica – com diplomas em programação de jogos e críticas jornalísticas equiparáveis às de cinema autoral. O critério supremo é a "imersão", ou seja, a capacidade de camuflar a vida quotidiana. Predominam fantasias de poder e destruição: combates com espadas (Blade of the Immortal), guerras épicas (Call of Duty, Battlefield), onipotência (God of War, Prototype), vingança (God of War, Mortal Kombat) ou apocalipses (Left 4 Dead, Gears of War, Resident Evil). Jogos massivos online como World of Warcraft promovem colaboração em facções fictícias (Horda ou Aliança), onde a morte é trivial – um fantasma leva o jogador de volta ao corpo, sem sequelas duradouras.

Na esfera sexual, opções variam da pornografia facilitada e gratuita a mundos interativos como Second Life, onde avatares esculpidos atendem desejos: corpos jovens, esguios, adornados com tatuagens, piercings, espadas samurai ou pistolas Uzi. Essa fusão do primitivo medieval com o futurista espacial oferece escape da civilização moderna. Contudo, a perfeição virtual tem custo: a perfeição digital demanda pagamento real, e imperfeições reais (idade, obesidade, deficiências) são banidas. O reflexo disso, está na busca por um corpo perfeito por meio de cirurgias e plásticas no mundo real para que se pareça com a perfeição do mundo digital.

Desespero moderno e o vício da fuga

O que parece inofensivo revela patologias (transtornos) profundas. O anseio por outra identidade sinaliza desespero – um mal moderno, ausente em sociedades tradicionais com limites e responsabilidades estabelecidas. A liberdade individual, com escolhas de identidade até de gênero e fama sem mérito, eleva expectativas irrealistas, bombardeadas por imagens de vidas ideais alimentadas pelo mundo virtual. A fantasia, pretendendo aliviar, agrava o vazio: realça a decepção diária, gerando vício. Milhões devoram mais de 14 horas diárias em jogos ou mundos virtuais, buscando fugir do mundo real.

Paradoxalmente, Second Life evolui de erotismo para capitalismo virtual – vendas de terras e bens revelam o hedonismo, espelhando o mundo real. Surgem contra exemplos satíricos como Get a First Life, exortando: "Faça sexo de verdade!" Romances cibernéticos colapsam na transição offline: casais inspecionam-se via webcam, planejam encontros românticos as escondidas, mas lamentam a ausência de câmeras para validar a experiência; por fora buscam o prazer real, mas por dentro alimentam a vergonha e a culpa.

A tirania das telas e a percepção do mundo

As telas dominam: estão cada vez maiores e mais definidas em espaços públicos, menores em celulares e óculos futuristas, já existem até lentes de contato controladas por movimentos oculares. Imagens vibrantes, dinâmicas e aceleradas ofuscam a realidade "moribunda, estática e sombria". Como na alegoria platônica da caverna, o brilho das telas camufla as sombras reais; personagens digitais superam espectadores em vivacidade. Comportamentos na tela são exagerados: crises novelescas intensas, risos histéricos, indignações justas.

A edição frenética – mudanças a cada segundo – provoca respostas fisiológicas de alerta (4-6 segundos), mantendo cérebro e corpo em tensão perpétua. Isso vicia, mas desperta atenção sustentada, tornando a realidade insuportavelmente lenta. A experiência depende da atenção: a mente condicionada por telas, empobrece a percepção da realidade.

Riscos e possíveis saídas

As telas – de celulares a TVs gigantes – nos bombardeiam com imagens vibrantes, rápidas e perfeitas, fazendo a vida real parecer chata, lenta e sem graça. Elas criam um vício: o cérebro fica em alerta constante com cortes frenéticos, e paramos de notar o mundo ao redor, como prisioneiros na caverna de Platão, vidrados em sombras falsas. Pesquisas indicam que, ao praticar atividades que envolvem a atenção plena, podemos recuperar a beleza e a importância das experiências mais simples e essenciais da vida.

Extraído e adaptado do livro: A Era da Loucura, Michael Foley, Editora Alaúde

domingo, 14 de dezembro de 2025

A Corrosão da Responsabilidade - 1Coríntios 9.24-27

Imagine um mundo onde ninguém assume a culpa por nada: o aluno que perde o prazo do trabalho inventa um "Transtorno de Pressão de Tempo" (TPT) para justificar o atraso, em vez de dizer "errei, me desculpe". É isso que é chamado de corrosão da responsabilidade – a gente tá virando experts em fugir da culpa, transformando defeitos comuns em "doenças" com siglas chiques, tipo procrastinação ou timidez virando transtornos oficiais no DSM (o manual dos psiquiatras).

As grandes industrias farmacêuticas adoram isso! Timidez vira "Transtorno de Ansiedade Social" e vende remédios para transtorno de ansiedade. Procrastinação pode virar doença clínica. Daqui a pouco vão dizer que existe o "Transtorno do Vício do Transtorno" (TVT) – a mania de rotular todo erro como problema cerebral.

Em vez de "foi minha culpa", todo mundo grita "sou vítima!". Um cara multado por estacionar mal processa a prefeitura por "estresse emocional" e ganha a causa. Acidentes viram conspirações, nunca falha pessoal.

A pessoas exigem férias perfeitas, notas altas, promoções e parceiros ideais, mas não conseguem isso, e de quem é a culpa? Culpa do sistema, não delas. Dívidas aumentam porque as pessoas pensam "eu mereço esse estilo de vida agora", e assim gastam e fazem empréstimos, mas quem é que paga a conta, quando eu estou exercendo meu direito de ser feliz?

Ao longo do tempo, a sociedade passou a desacreditar na capacidade de escolha e na liberdade de decidir, apoiando ideias deterministas que dizem que nossas ações são influenciadas por genes, cérebro ou circunstâncias, e não por vontade própria. Alguns pensadores afirmam que somos produtos do acaso e da necessidade, sem responsabilidade pelos nossos atos, o que enfraquece a ideia de que podemos mudar ou melhorar.

Essa perda de responsabilidade gera problemas como culpar os outros por nossos erros, evitar assumir a culpa, e transferir a responsabilidade para fatores externos ou até forças ocultas. É comum também que as pessoas se vejam como vítimas, mesmo em situações difíceis, e que busquem justificar comportamentos errados com a desculpa de que “não podem evitar”.


Em 1Coríntio 9.24-25, o apóstolo Paulo compara a vida cristã a uma corrida, onde todos participam, mas só alguns ganham o prêmio. É preciso esforço, disciplina e controle, assim como um atleta que treina o corpo e a mente sem desculpas de genética ou transtornos.

Embora o temperamento leve para o egoísmo, o caráter cristão é construído pela graça de Deus. Paulo fala de "escravizar" o corpo, indicando que, com a ajuda do Espírito Santo, podemos fazer escolhas livres e vencer nossos impulsos, não por mérito humano, mas para a glória de Deus.

Portanto, ao invés de rotular-se como vítima, isso mostra uma falta de confissão e disciplina. Assim, pessoas podem experimentar liberdade verdadeira, vencendo obstáculos pela perseverança, como corredores que cruzam a linha de chegada. Devemos parar de arrumar desculpas para o nosso fracasso como se não fossemos responsáveis por eles.

Estudos de neurociência mostram que, apesar de nossas emoções e influências, podemos exercer controle sobre nossas ações. O cérebro é plástico, ou seja, podemos aprender a mudar nossos hábitos e atitudes, fortalecendo o caráter e a responsabilidade pessoal. Assim, mesmo com certos fatores que influenciam nosso comportamento, somos capazes de fazer escolhas conscientes e assumir as consequências, o que é fundamental para uma vida mais plena e ética.

A responsabilidade pessoal é essencial para o crescimento e a justiça. Acreditar que tudo acontece por acaso ou por força externa nos enfraquece e nos impede de crescer. É importante reconhecer nossos limites, mas também nossa capacidade de decidir e mudar, assumindo as consequências de nossas ações.

*(Extraído e adaptado do livro “A era da Loucura” - Michael Foley)*

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O Lar como Seminário do Evangelho

O lar deve ser entendido como um seminário do evangelho, onde o discipulado intencional não é apenas uma atividade extra, mas o estilo de vida que guia toda a família. É no ambiente familiar que Deus ordena a passagem da fé de geração em geração, exigindo dos pais uma dedicação constante e intencional para ensinar e viver os ensinamentos bíblicos (Deuteronômio 6:5-7). O discipulado no lar envolve amor a Deus, disciplina, oração e o cuidado de conduzir o coração dos filhos, não apenas seu comportamento exterior.
Os pais são chamados a guiar seus filhos com equilíbrio entre correção e admoestação da Palavra, promovendo um crescimento espiritual que leva a confiança em Deus e ao temor do Senhor (Efésios 6.4). Isso se dá por meio do exemplo diário, da resolução de conflitos baseados em princípios cristãos e da prática do culto doméstico, que mantém a fé ativa e concreta no lar (Deuteronômio 6.5-9).
O maior desafio é evitar a complacência, entendendo que a fé não se transmite automaticamente, mas por meio de empenho, renúncia e compromisso diário. Assim, o lar cristão funciona como um arco, que ao ser tensionado pelo esforço dos pais, lança os filhos na direção da glória de Deus com base em convicções firmadas pela graça (Sl 127.3-5). O trabalho familiar de discipulado é o legado que impacta gerações futuras com a fidelidade de Deus.
Essa visão valoriza o lar como espaço fundamental para a formação espiritual, onde o evangelho é vivido e transmitido com amor, disciplina e oração, criando uma base sólida para a vida cristã de toda a família.
Essa síntese reflete os principais pontos da ideia do lar como seminário do evangelho, destacando a importância do discipulado intencional e da responsabilidade dos pais na transmissão da fé.

Fonte: https://www.editoratrinitas.com.br/a-urgencia-do-discipulado-intencional-em-um-mundo-caido